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sábado, 2 de maio de 2009

Mestre - Fernando Pessoa


Meu mestre e meu guia!

A quem nenhuma coisa feriu, nem doeu, nem perturbou,

Seguro como um sol fazendo o seu dia involuntariamente,

Natural como um dia mostrando tudo,

Meu mestre, meu coração não aprendeu a tua serenidade,

Meu coração não aprendeu nada.

Meu coração não é nada,

Meu coração está perdido.

Mestre, só seria como tu se tivesse sido tu.

Que triste a grande hora alegre em que primeiro te ouvi!

Depois tudo é cansaço neste mundo subjetivado,

Tudo é esforço neste mundo onde se querem coisas

Tudo é mentira neste mundo onde se pensam coisas

Tudo é outra coisa neste mundo onde tudo se sente.

Depois, tenho sido como um mendigo deixado ao relento

Pela indiferença de toda a vila.

Depois, tenho sido como as ervas arrancadas,

Deixadas aos molhos em alinhamentos sem sentido.

Depois, tenho sido eu, sim eu, por minha desgraça,

E eu, por minha desgraça, não sou eu nem outro nem ninguém.

Depois, mas por que é que me ensinaste a clareza da vista,

Se não me podias ensinar a ter a alma com que a ver clara?

Por que é que chamaste para o alto dos montes

Se eu, criança das cidades do vale, não sabia respirar?

Por que é que me deste a tua alma se eu não sabia que fazer dela

Como quem está carregado de ouro num deserto,

Ou canta com voz divina entre ruínas?

Por que é que me acordaste para a sensação e a nova alma,

Se eu não saberei sentir, se a minha alma é de sempre a minha?

Prouvera ao deus ignoto que eu ficasse sempre aquele

Poeta decadente, estupidamente pretensioso,

Que poderia ao menos vir a agradar,

E não surgisse em mim a pavorosa ciência de ver.

Para que me tornaste eu? Deixasses-me ser humano!

Feliz o homem marçano,

Que tem a sua tarefa quotidiana normal, tão leve ainda que pesada,

Que tem a sua vida usual,

Para quem o prazer é prazer e o recreio é recreio,

Que dorme sono,

Que come comida,

Que bebe bebida, e por isso tem alegria.

A calma que tinhas, deste-ma e foi-me inquietação .

Libertaste-me, mas o destino humano é ser escravo.

Acordaste-me, mas o sentido de ser humano é dor.



Alvaro de Campos.

O Barquinho - Roberto Menescal / Ronaldo Bôscoli


Dia de luz
Festa de sol
E o barquinho a deslizar
No macio azul do mar
Tudo é verão
O amor se faz
Num barquinho pelo mar
Que desliza sem parar
Sem intenção nossa canção
Vai saindo desse mar
E o sol beija o barco e luz
Dias tão azuis

Volta do mar
Desmaia o sol
E o barquinho a deslizar
E a vontade de cantar
Céu tão azul
Ilhas do sul
E o barquinho é um coração
Deslizando na canção
Tudo isso é paz
Tudo isso traz
Uma calma de verão e então
O barquinho vai
A tardinha cai
O barquinho vai


O grande milagre.

Quando acreditar que no seu céu já não há mais estrelas, tenha mais uma vez na fé vida. Viver é a arte de se surpreender a cada momento com os milhares de milagres que ocorrem a todo o tempo e nós não os percebemos por puro egoísmo, por teimar em somente perceber as mudanças que nos afetam diretamente e ainda em não as querer aceita-las. O desejo imediatista nos corrompe e nos faz querer que as coisas ocorram ao nosso tempo e como nós planejamos e se algo faz com que não saia como esperávamos nada mais tem valor.
Se parássemos para constatar o quão valioso é a vida e contemplássemos as pequenas coisas, veríamos que na verdade as pequenas coisas são os nossos problemas e o quão mesquinhos somos, e que muitas coisas que consideramos "detalhes" são os grandes milagres da vida.
Se algo te aflige preocupe-se, reflita e resolva, mas não deixe que os problemas tomem todo o sentido da sua vida. Passar por essa longa "avenida de gás néon" que é a vida não é fácil muitas vezes balançamos, mas que ninguém a tente complicar porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer.
Acredito também que é impossível morrer de amor, mas hoje eu quero rasgar o meu coração e inundá-lo de boas aventuranças. Quero, por mais que às vezes me ceguem e eu não consiga enxergar o meu caminho, sentir que a vida cura, acreditar-la e agradecer-la por esta respirando, pensando, andando, me movimentando, interagindo, VIVENDO.
Dias de cegueira já ocorreram varias vezes, até dias de querer negar o único e verdadeiro tesouro, a vida, ocorrem e ela se mostra mais sensata sendo mais generosa ainda que o egoísmo tome conta. Contente-se com a vida que você tem e se ela não a satisfizer, ainda assim, contemple-a e empenhe-se em mudar-la sabendo que você é o único responsável por ela e quando não se tem a vida que gostaríamos é porque falhamos e tenha certeza de que somos os únicos responsáveis por mudá-la.
Eu abri meus olhos e enxerguei a vida toda como um milagre. Decidi não reclamar, apenas agradecer e entender que ter fé na vida não é uma opção, mas o único caminho para se viver bem.


1bertojr.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Meu Bem Querer - Djavan


meu bem querer
é segredo, é sagrado
está sacramentado
em meu coração
meu bem querer
tem um quê de pecado
acariciado pela emoção

meu bem querer
meu encanto, estou sofrendo tanto
amor, e o que é o sofrer
para mim que estou
jurado pra morrer de amor

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Diaria mente eu me frequento mais, comigo mesmo, sou eu mesmo.


Viver cada dia como o ultimo, mas sem desejar que este seja de fato o ultimo tem sido o meu maior desafio a alguns dias, "Mais Uma Vez Amor"? Não definitivamente, ainda é com você que eu sonho.
Sou platéia de mim mesmo e todos os dias me assisto faminto por novas emoções, mas quem eu vejo no palco é frágil e não está preparado para o Teatro Maior. O ator é O Mendigo, vitima das suas defesas contra as oscilações do coração do homem. Se auto flagelou e terminou vestindo uma mortalha sem sentimentos em uma tentativa desesperada de sempre se manter a uma distancia emocional das pessoas.
Acreditava o Saudável Mendigo que distancia emocional seria benéfico e que o tornaria mais feliz ou no mínimo menos infeliz. A mortalha foi arquitetada por mim e, ainda, não foi ele próprio quem a vestiu.
As marés das incertezas da vida não foram temerosas com o Coitado Mendigo e ele se perdeu no meio do oceano da vida, ficou exatamente entre Eu, no meio do oceano, e a margem do convívio emocional saudável. Se a maré impiedosa, as chuvas de lágrimas, os raios do rancor e os vendavais de palavras ríspidas o desnorteassem ainda assim não seria tão difícil o navegar se o seu porto seguro não tivesse sido destruído.
Navegar sem saber onde se vai parar pode até ser gostoso, mas quando se sabe que tem para onde voltar e onde se abrigar nos dias de tormentos. Ficar perdido no meio do oceano sem ter para onde voltar e sem saber onde vai parar é desesperador para o Pobre Mendigo que nem aulas sobre como navegar lhe deram.
A todo tempo o Desgraçado Mendigo lia nos revestimentos do barquinho noticias que o fizeram desistir até de tentar controlar o rumo dessa viagem sem destino, o seu Herói de infância é uma farsa, sendo assim melhor passar a acreditar que nunca havia gostado dele do que conviver com a dor de ver as suas expectativas frustradas a todo o tempo. Leu, também, uma historia de amor sobre um sentimento jamais sentido por ele onde o Penalizado Mendigo se sentiu milionário livre de todos os desafetos e acreditou ter encontrado o seu Grande Tesouro. O barquinho apesar de pesado de tanta carga navegava feliz por sentir que um novo Porto Seguro estava prestes a ser erguido, mas logo a maré das incertezas cobriu o barquinho e levou as boas noticias e lembranças da família, restando apenas o comunicado de que O Casamento estava breve, mas ele, o Sonhador Amargurado Mendigo, era apenas mais um convidado.
O barco permaneceu murcho e cinza por meses... Mas o Valente Mendigo resolveu reescrever as noticias com as palavras embaralhadas que o sobrara que apesar de, ainda, desgostoso com a vida, encontrava-se esperançoso por dias melhores. Com o passar dos dias de calmaria e certo que não durariam, tentou escrever um conto, dois... Mas as letras lhe fugiam, a calmaria passou e viagem voltou a ser conturbada, o medo de sonhar em um dia ter um porto seguro já não é sentido perto.
Os dois protagonistas dos contos se foram em marolinhas, e já não se tinha força para segurar-los e nem coragem de encarar e teimar em escrever uma historia. Pensar em pagar para ver se no fim viria mais uma vez ouro de tolo ou a tão almejada e merecida recompensa, o seu porto seguro, é muito doloroso e faltara-lhe até coordenação para tomar uma ação que não seja observar a marolinha se afastando e lamentar.
O Raquítico Mendigo transformou-se em um covarde, temeroso as oscilações dos ventos e das marés e resolveu pular do barco, caindo aqui neste palco de cortiça como um Palhaço das Perdidas Ilusões, onde o único espectador sou Eu e que somente o alimento sob a condição de não tirar a mortalha.


1bertojr

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Atiraste Uma Pedra - Herivelto Martins / David Nasser


Atiraste uma pedra
No peito de quem
Só te fez tanto bem
E quebraste um telhado
Perdeste um abrigo
Feriste um amigo
Conseguiste magoar
Quem das mágoas te livrou
Atiraste uma pedra
Com as mãos que essa boca
Tantas vezes beijou
Quebraste um telhado
Que nas noites de frio
Te servia de abrigo
Feriste um amigo
Que os teus erros não viu
E o teu pranto enxugou
Mas acima de tudo
Atiraste uma pedra
Turvando essa água
Essa água que um dia
Por estranha ironia
Tua sede matou

terça-feira, 21 de abril de 2009

Onde Estará O Meu Amor - Chico César


Como esta noite findará
E o sol então rebrilhará
Estou pensando em você...
Onde estará o meu amor ?
Será que vela como eu ?
Será que chama como eu ?
Será que pergunta por mim ?
Onde estará o meu amor ?
Se a voz da noite responder
Onde estou eu, onde está você
Estamos cá dentro de nós
Sós...
Se a voz da noite silenciar
Raio de sol vai me levar
Raio de sol vai lhe trazer
Onde estará o meu amor ?

Chão de Estrelas - Silvio Caldas/Orestes Barbosa


Minha vida era um palco iluminado
Eu vivia vestido de 'doirado'
Palhaço das perdidas ilusões
Cheio dos guizos falsos da alegria
Andei cantando a minha fantasia
Entre as palmas febris dos corações
Nosso barracão no morro do salgueiro
Tinha o cantar alegre de um viveiro
Foste a sonoridade que acabou
E hoje, quando do sol, a claridade
Forra o meu barracão, sinto saudade
Da mulher pomba-rola que voou
Nossas roupas comuns dependuradas
Na janela qual bandeiras agitadas
Pareciam um estranho festival
Festa dos nossos trapos coloridos
A mostrar que nos morros mal vestidos
É sempre feriado nacional
A porta do barraco era sem trinco
Mas a lua furando nosso zinco
Salpicava de estrelas nosso chão
Tu pisavas nos astros distraída
Sem saber que a ventura desta vida
É a cabrocha, o luar e o violão.